Em 1919, Walter Gropius estruturou e organizou a Statliches Bauhaus – Weimar (Bauhaus Estatal de Weimar), segundo GALLARZA (2002), o termo foi escolhido como inspiração das Bauhütten medievais, que eram comunidades de trabalho formadas por artistas e artesãos, construtores de catedrais. O princípio norteador da Bauhaus era o de ensinar fazendo e aprender imitando. Para CARDOSO (2004) a principal contradição desta escola era o fato dela ser uma instituição estatal com a maioria de seus membros possuírem idéias libertárias, com isso os conflitos ideológicos fizeram parte do cotidiano desta escola que é considerada como a principal transformadora no que tange ao paradigma de ensino do design do século XX.
A história da Bauhaus é dividida a partir de seus diretores, ou a partir de sua Fundação (1919 – 1923), Consolidação (1923 – 1928) e Desintegração (1928 – 1933). O primeiro diretor e fundador foi Walter Gropius (1919 – 1927), através dele a Bauhaus se consolidou e teve duas cedes na sua gestão, Weimar (1919 – 1924) e Dessau (1925 – 1931), conforme Quadro 1. A partir de 1928, quem assumiu o posto de Gropius foi Hannes Meyer e em 1930 até sua desintegração em 1933, o diretor fora Ludwig Mies van der Rohe, ele participou do final da sede em Dessau e da transferência para Berlim (1932 – 1933), local aonde a escola veio a se desintegrar com a ascensão do movimento Nazista.
ANO |
DIRETOR |
LOCAL |
FASE |
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1919 |
Walter Gropius |
Weimar |
Fundação |
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1920 |
Walter Gropius |
Weimar |
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1921 |
Walter Gropius |
Weimar |
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1922 |
Walter Gropius |
Weimar |
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1923 |
Walter Gropius |
Weimar |
Consolidação |
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1924 |
Walter Gropius |
Weimar |
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1925 |
Walter Gropius |
Dessau |
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1926 |
Walter Gropius |
Dessau |
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1927 |
Walter Gropius |
Dessau |
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1928 |
Hannes Meyer |
Dessau |
Desintegração |
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1929 |
Hannes Meyer |
Dessau |
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1930 |
Ludwig Mies van der Rohe |
Dessau |
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1931 |
Ludwig Mies van der Rohe |
Dessau |
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1932 |
Ludwig Mies van der Rohe |
Berlim |
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1933 |
Ludwig Mies van der Rohe |
Berlim |
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Quadro 1 – Cronologia da Bauhaus Fonte: GALLARZA (2002, p. 16) |
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Gropius como participante e conhecedor do projeto Werkbund, tinha como conceito para a Bauhaus “concretizar uma arquitetura moderna que, como a natureza humana, abrangesse a vida em sua totalidade”, GROPIUS (2004), sua ideologia era eliminar as desvantagens empregadas através da máquina, sem que isso pudesse comprometer as suas vantagens para a sociedade, de uma forma geral, era uma visão bastante semelhante com Muthesius na sua concepção de arte aplicada à indústria, WICK (1989). Através de Gropius a ênfase didática em sua gestão fora despertar no aluno a sensibilidade para o desenvolvimento de projetos e com isso SOUZA (1996) afirma que ele enquanto foi diretor, permaneceu entre o espírito acadêmico e o espírito novo, que estavam se estruturando no novo pensar do design, das artes e do artesanato daquele período.
Na fase de fundação da escola, Gropius a estruturou de forma bastante diversificada, chamando para seu quadro docente os pintores Lyonel Feininger e Joannes Itten, o escultor Gerhard Marcks, até o ano de 1922, Georg Muche, Oskar Schlemmer, Paul Klee, Lothar Schreyer e Wassily Kandisky. Nesse tempo houve modificações como em 1923 a saída de Joannes Itten para a entrada de Laszlo Moholy-Nagy. Nesse sentido a escola não conseguiu estabelecer um programa de ensino de acordo com a visão de Gropius, pelo fato dos professores acharem que era progressista demais para eles.
Entre os conflitos ideológicos existentes nesse período, que deixaram a formação da escola instável, a presença de Joannes Itten, foi fundamental para sua estabilização, pois fora ele que havia instalado o curso preliminar, dando assim a formalização do sistema de ensino, ainda que indefinido no programa da Bauhaus, WICK (1989). O objetivo principal do curso preliminar era dar ao aluno a qualificação criativa básica para que este pudesse “transcender o individualismo artístico”.
Mesmo com uma contribuição fundamental, o conflito entre Gropius e Itten teve seu fim em 1923, quando este se desligou da escola, segundo WICK (1989), o embate entre eles era resultado de uma confrontação entre dois conceitos de vida fundamentalmente diferentes, ou seja, eram visões que se opunham no sentido do conceito da arte, design, indústria e também sobre aspectos religiosos, já que Itten fazia parte de um grupo chamado, culto Mazdaznan.
Dentre as ideologias que fizeram parte da Bauhaus estava o Construtivismo russo, o qual a instituição entrou em contato em 1922, através de Wassily Kandisky e também através do expoente do movimento De Stijl, Theo van Doesburg, com ministração de seminários sobre arte figurativa, mas mesmo diante destas influências a escola de Bauhaus sofreu severas críticas, principalmente pelo fato de Doesburg ter ministrado palestras de cunho expressionista, entre as críticas, Vilmos Huszar em 1922 elaborou o seguinte resumo:
“O que os mestres realizam é o que ensinam. E o que realizam? Cada um faz aquilo que lhes inspira seu humor, distantes que estão, e muito, de uma disciplina rigorosa. Onde podemos encontrar pelo menos tentativas de um trabalho conjunto?… Onde há uma unificação das várias disciplinas? Onde é que se encontram ao menos tentativas de se chegar a uma obra de arte unificada, de uma configuração unitária de espaço, forma e cor? Quadro… nada além de quadros e quadrinhos, artes gráficas e esculturas isoladas. O que Feininger mostra já foi feito na França, e muito melhor, há dez anos (Cubismo de 1912). Suas aquarelas mais recentes são uma infusão aguada de Klee! O próprio Klee rabisca desvairos do tipo dos que se encontram, às vezes até mais bonitos, na pintura dos loucos de Prinzhorn. Kandisky continua repetindo suas decorações esfumaçadas e confusas… Arbitrária e caprichosamente! Mais arbitrários e mais caprichosos, intelectualizados e destituídos de força intuitiva, além de acanhadamente ponteados, são os trabalhos de G. Muche. As borratadas ocas e pomposas de Itten têm por objetivo único a produção de um efeito exterior. Os trabalhos de Schlemmer são experimentos, que já conhecemos de outros escultores… De autoria do senhor diretor, Gropius, existe no cemitério de Weimar um monumento expressionista, que enquanto produto de uma incursão literária barata não pode concorrer nem mesmo com as esculturas de Schlemmer… Para se alcançarem os objetivos traçados pela Bauhaus em seu programa seriam necessários outros mestres, mestres que soubessem o que é necessário para se dar forma a uma obra de arte homogênea, e que provassem por atos sua capacidade de leva-la a efeito…” WICK (1989, p. 43).
Apesar dessas críticas, não impediu a escola de abarcar na ideologia expressionista, devido às influencias estabelecidas por Kandisky, Lissitzky e Doesburg. Nesse período, Feininger cogitou a possibilidade de Doesburg fazer parte de corpo docente da Bauhaus, por se tratar um pólo oposto ao “romantismo extravagante” que rondava as estruturas da escola.
A partir de 1923 a Bauhaus passou para sua fase de consolidação, que foi marcada pela saída de Itten e a convocação de Moholy-Nagy, que mais tarde se tornaria o diretor do curso preliminar da Bauhaus. Segundo WICK (1989) a entrada de Kandisky em 1922 e Moholy em 1923, significaram o fortalecimento das relações de lealdade com a filosofia da escola. O que estabeleceu esse estágio de lealdade foi também a contratação de alguns jovens mestres formados na escola, o que fez da Bauhaus uma escola mais harmoniosa no aspecto dos conflitos internos, que ocorriam na sua fase de fundação.
Esse período foi marcado por um novo conflito, o fato de haver a substituição dos antigos mestres por jovens mestres formados pela escola, o paradigma que a norteou foi à combinação do ensino artístico com os trabalhos realizado nas oficinas. Os antigos mestres, que na sua maioria eram artistas livres, estavam restritos a uma produção de obras de arte únicas, ou seja, marcados pela produção individual da arte, enquanto que as questões que norteavam aquele período era a produção artístico-técnica da produção em série na mente dos jovens mestres. Nesse sentido a escola começou a ganhar um maior aspecto relacionado à indústria e uma periferização da pintura, que na ótica de muitos professores, como é o caso de Muche, era muito negativo para o desenvolvimento da arte. Com isso muitos professores se desligaram da escola por não concordarem com o caminho que ela estava tomando. Assim, ela começou a se desligar de movimentos místicos em torno do artesanato medieval como o de Itten e do culto ao fenômeno único que estava representado no Expressionismo, para desenvolver um funcionalismo rígido e despojado que já era percebido em 1923 com a Exposição da Bauhaus, WICK (1989).
A Bauhaus conseguiu com essa exposição grande postura ideológica, quando no mesmo período em Weimar, ocorria um seminário proposto pela Werkbund, que se mostrou solidária ao instituto, mas contrário a isso, do ponto de vista material e político, a situação da escola não era favorável, pois recebiam constantes criticas dos partidos de direita e do ministro de finanças, o social-democrata Hartmann, este considerava a escola “supérflua e sem perspectivas auspiciosas”, com isso diminuiu seu apoio financeiro deixando a instituição limitada em sua capacidade de atuação na sociedade.
Com os direcionamentos políticos que estavam norteando Weimar em 1924, a Bauhaus foi obrigada a mudar sua sede para Dessau com o apoio do prefeito, que era social-democrata, Friz Hesse, em 1925 a escola se encontrou nessa cidade progressista e essa mudança, segundo WICK (1989) poderia prejudicar a estabilidade da escola e com isso ela ser desintegrada, mas o que acabou acontecendo foi ao contrário, em Dessau, a Bauhaus pode ampliar seu processo de consolidação como escola, com os nacionais-socialistas, a Bauhaus pode contar com grandes apoios financeiros e continuar com um trabalho sistemático e contínuo, melhor do que na cidade de Weimar, o único professor que se desligou da escola nesse período foi Gerhard Marcks, nesse período a escola pode construir seu próprio edifício, o que contribuiu para um programa mais completo e também com a grade docente composta por jovens mestres formados por ela, com isso a Bauhaus se encaminha cada vez mais para o processo de funcionalismo industrial.
Gropius se desligou da Bauhaus em 1928, pois se desgastara com a organização da Instituição em Dessau e também com as críticas sofridas dos conservadores, com isso preferiu trabalhar como arquiteto autônomo em Berlim, com sua saída, a Bauhaus sofreu uma sensível perda de substância, pois fora Gropius que havia dado sentido ao ensino aplicado na Bauhaus e com sua ausência a escola marca o seu processo inicial para sua desintegração.
Hannes Meyer assumiu o lugar de Gropius, este arquiteto era ligado à seção suíça do Werkbund e segundo SOUZA (2001), Meyer representou uma evolução do conceito funcionalista estético/formalista para o conceito funcionalista técnico/produtivista. Com esses princípios estabelecidos por Meyer, a Bauhaus tinha abandonado de vez a idéia de uma escola de arte, para uma imperiosa idéia de um local de produção voltado à satisfação de necessidades sociais, WICK (1989), sob a direção de Meyer, o departamento central da Bauhaus passou a ser o de arquitetura e estava desatrelada dos demais departamentos, com exceção da oficina de acabamento, nesse aspecto a escola obteve considerável enfraquecimento na área da pintura e nestas condições, era inevitável o processo de desintegração que estava destinada à Bauhaus, principalmente com o desligamento de professores como Schlemmer que se afastou em 1929, Klee em 1931, com a saída destes professores cresceu em Kandisky uma grande desavença com Meyer que por motivos políticos em 1930 foi substituído por Ludwig Mies van der Rohe, que já era considerado como um dos mais destacados arquitetos do seu tempo e assim como Gropius, também trabalhara para Peter Behrens de 1908 a 1911.
Mies limitou a Bauhaus a “pretensão de Meyer por uma eficiência social através do aspecto incondicional de seu conceito de qualidade”, WICK (1989) e com Mies a Bauhaus permaneceu com os traços de uma escola de arquitetura com apenas algumas classes de design, duas de pintura livre e uma de fotografia. Mies reduziu drasticamente o trabalho de produção e investiu mais tempo em programas de ensino, diferentemente na gestão anterior a sua.
Com a derrota da social-democracia em Dessau, a Bauhaus precisou procurar outro lugar para estabelecer sua sede e é em Berlim como instituto privado, ocupando a instalação de uma antiga fábrica. Em 1933 a Bauhaus foi acusada de centro de cultura Bolchevista e Comunista, com isso a Gestapo levou a Instituição a uma autodissolução involuntária, WICK (1989), dando fim a uma escola que estabeleceu os princípios e paradigmas principais para o ensino do design moderno, a Bauhaus deixou um legado para o processo de ensino e uma das maiores contribuições que essa instituição deixou na visão de CARDOSO (2004) foi a idéia de que o design devesse ser pensado como uma atividade unificada e global, desdobrando-se em muitas facetas mas atravessando ao mesmo tempo múltiplos aspectos da atividade humana. Os caminhos trilhados pela Bauhaus acabou passando para um dos maiores antagonismos existentes para o design moderno, que é com relação à arte e o artesanato e que continuou para seus sucessores como a escola de HfG-Ulm.